Fala Cascais| O povo quer mesmo Pão e Circo?
Da leitora Maria João Azevedo recebemos o seguinte texto:
Exmo senhor diretor do Cascais24horas.
Temos assistido em Carcavelos, de alguns anos a esta parte, a um escalar de festas e concertos, que se agrava durante a Primavera/Verão.
A Praça do Mercado de Carcavelos, inserida numa zona residencial, tornou-se um arraial permanente, com ruído excessivo, praticamente todos os fins de semana e feriados, desde março/abril até ao final do verão.
Os concertos são frequentes, duram vários dias, com equipamento sonoro que debita decibéis dezenas de vezes acima dos valores permitidos por lei, durante mais de dez horas seguidas.
Para além das festas com concertos, tornou-se hábito os estabelecimentos de restauração inseridos na Praça, instalarem aparelhagem de música amplificada e DJ’s, em horários prolongados, ao ar livre, sem qualquer barreira sonora. E sem qualquer razão aparente, numa zona residencial. Há idosos doentes que não conseguem descansar, crianças que não conseguem dormir, estudantes que não conseguem concentrar-se e preparar para os exames – enfim, toda uma população que é vítima, é constantemente massacrada pela música e ruído excessivos e está privada da utilização normal das suas habitações.
Acresce que, para além da incomodidade sonora diretamente associada aos espetáculos e atuações musicais, existe ainda um problema recorrente de perturbação da ordem pública. Após o encerramento dos espetáculos, assiste-se à concentração de grupos de pessoas nas áreas residenciais adjacentes, utilizando indevidamente jardins e áreas habitacionais para a satisfação de necessidades fisiológicas e outras, prolongando os efeitos da atividade muito para além do horário formalmente autorizado. As capacidades de monitorização sonora, conforme obrigação legal, e de fiscalização, são inexistentes ou muito limitadas.
Situação igualmente preocupante ocorre no Jardim da Quinta do Barão, espaço manifestamente reduzido para a realização dos eventos e arraiais como os que temos visto ultimamente, totalmente desproporcionais ao tamanho e propósito do jardim.
Para finalizar a época em grande, somos brindados com um mega concerto na Praia de Carcavelos, com pelo menos 7 horas seguidas de altifalantes e colunas de som ligados.
O direito ao descanso é um direito fundamental associado à saúde e à qualidade de vida. A Organização Mundial de Saúde identifica o ruído excessivo e continuado como um fator prejudicial à saúde, associado a perturbações do sono, ansiedade, stress e redução da qualidade de vida. A União Europeia reconhece o ruído ambiental como um dos principais fatores de degradação da qualidade de vida nas zonas urbanas. A Diretiva Europeia 2002/49/CE relativa à avaliação e gestão do ruído ambiente estabelece a necessidade de proteger as populações contra a exposição prolongada ao ruído excessivo, incentivando os Estados‑Membros e as autoridades locais a prevenir, reduzir e controlar os impactos do ruído sobre a saúde humana. Essa diretiva europeia deu origem à atual legislação portuguesa em matéria de ruído, incluindo o Regulamento Geral do Ruído (Decreto‑Lei n.º 9/2007, de 17 de janeiro), reforçando o princípio de que o desenvolvimento urbano, cultural e económico deve coexistir com a proteção do bem‑estar e descanso das populações residentes. Mas não é só a nível nacional. O direito ao descanso está igualmente protegido a nível local pelo Regulamento Municipal do Ruído. Para além disso, a mesma Câmara Municipal de Cascais, em “A Minha Estratégia de Saúde de Cascais 2025‑2030”, reconhece expressamente a importância do descanso e da proteção da saúde ambiental da população. Infelizmente, a prática é outra...
Todos reconhecemos a importância da dinamização cultural e comercial da freguesia. Contudo, essa dinamização não pode ocorrer à custa da saúde, tranquilidade e qualidade de vida da população residente. Haverão certamente locais apropriados para, com conta e medida, se proporcionarem concertos sem prejudicar a saúde alheia.
Mas há ainda um outro aspeto, claramente menos percetível que o impacto sonoro excessivo e o desrespeito pela ordem pública, mas igualmente perturbador. São os milhões de euros do erário público gastos, todos os anos, nestas iniciativas. Só em Carcavelos, as festas da Praça do Mercado e do Jardim da Quinta da Alagoa custam todos os anos mais de 250 mil euros. O concerto na Praia custou acima de meio milhão de euros. Seria certamente interessante, a nível municipal, comparar esses valores que, repito, são recorrentes, pois são astos repetidamente todos os anos, com os orçamentos empregues na melhoria da limpeza urbana e controlo de pragas, da mobilidade e, porque não, da habitação social. Quantos financiamentos para renda acessível dariam esses vários milhões esfumados todos os anos pelos concertos e festas pagos pelo Município, ou melhor, por todos nós?
E, infelizmente, este panorama está longe de estar circunscrito a Carcavelos ou ao Município de Cascais.
Será que o povo quer mesmo pão e circo? Devíamos aprender com a história: triste fim tiveram os autores e pregadores de tamanha patranha!
Atentamente
Maria João Azevedo











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